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14:12
by a-lemon
Eco de Umberto
Leva um segundo para se ler a frase um mês depois. Leva um mês para ler a frase seguinte. Um mês pode ser dois, se vc quiser imagina-lo com requintes de detalhe, minúcias das ações. Se desejar, poderá melhorar as caricias, os beijos descritos. Repeti-los muitas vezes e passar dias compondo este único período que levou alguns minutos para ser relatado. Isso se chama Tempo de Alucinação. Vc tem o controle total daquilo que quer imaginar sobre as coisas que não foram ditas. Vc faz do relativo tempo em sua mente oq que quiser. Me diga quanto é preciso pra saber quem vc é ou o como vc ama? Depende de vc, apenas de vc. Pq 3 minutos podem ser longos se tiver boas lembranças; ou curtos se quiser destruí-las. Em o Pêndulo de Foucault, existe uma descrição de uma rua parisiense onde ocorreu, de fato, um incêndio em 24 de junho de 1984. Tudo exatamente como era naquele momento. A lua, a situação dos prédios, as avenidas pelas quais Casaubon cruzava naquela mesma data e hora; menos o incêndio. Como foi que Casaubon não viu um edifício pegando fogo? Umberto Eco não quis. Então o leitor só colocará as labaredas, em suas fantasias, se desejar. Assim é tb a nossa vida. Somos autores de nossas vontades, leitores de nossas memórias. Se vc quiser muito, os incêndios serão irrelevantes. Se for destrutivo, considerará somente a eles.
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15:10
by a-lemon
Explicadinho
O som estava muito alto e a pista muito cheia.
-Se a gente se beijasse agora...
-O que, Mari?!
-SE A GENTE SE BEIJASSE AGORA...
-O QUEEE?!!
-SEEE A GEEN...humm,humm,hummmm...
Tobi não estava preparado para ficar com ela naquela noite, talvez nunca estivesse preparado para ela (Tobias existe de verdade; nunca quis dar pra mim nem eu come-lo pq somos heterossexuais). Marilia fazia o gênero impetuoso, não deixava nada para mais tarde (Marilia existe mesmo, mas tem outro nome. Nunca quis dar pra mim nem eu come-la pq não temos nada a ver). Enquanto se beijavam, os amigos olhavam com uma certa surpresa. Foram para o lounge esquentar o sofá sempre gelado e sair da vista dos amigos. Cecília, que gosta do Tobi, ficou triste e agarrou o primeiro sujeito que passou na frente (Cecília é minha amiga. Ela me faz feliz, contudo, nunca deu pra mim nem eu a comi pq somos apenas amigos). O sujeito que Cecília agarrou era o namorado da Roberta (Roberta não existe na vida real, apenas na mente do Sujeito, portanto, não faz diferença se eu comi ou não). O Sujeito deu alguns beijos em Cecília, inventou a Roberta e a deixou sozinha no meio da pista. Cecília ficou mais triste e foi para o lounge. Sentou ao lado de Tobi e Mari.
-Agora me diz que tu tens uma casinha só tua.
-O que, Mari?
-AGORA ME DIZ QUE TU TENS UMA CASINHA SÓ TUA!
-O QUE?!
-AGORA MEEE DIZ QUEEE...hum,hum,hummm
-QUER IR PARA MINHA CASA?!
A casa de Tobi fica em um bairro chique de Porto Alegre (a minha não). Ao chegar, fumaram um Carlton e foram para o quarto (eu fumo Marlboro). O quarto de Tobi têm paredes azuis, uma cama americana enorme e um criado mudo de cedro com duas gavetas (meu quarto tem paredes amarelas, cama preta e criado mudo preto com 4 gavetas). Lembrou que não tinha mais camisinhas (lembrei agora que tb não tenho).
-Não acredito nisso!
-Nem eu, mari.
-Não acredito nisso!
-Tudo bem, a gente pode ficar aqui só brincando
-Não acredito nisso!
-E vc? Não tem nenhuma?
-Não.
-Não acredito nisso!
-Que amadores! (em coro)
Resolveram procurar uma Farmácia 24h. Deitados na cama, guia da Listel aberto no F, telefone na mão de Tobi. Primeira opção: chamou, chamou, chamou. Segunda tentativa: chamou, chamou, chamou e ninguém atendeu. Segunda opção: chamou até cair. Terceira opção: ocupado. Segunda tentativa da terceira opção: ainda ocupado...quinta tentativa: sempre ocupado.
-Devem estar no tele-sexo, Tobi.
Acreditaram que as farmácias 24h eram uma ficção e desistiram (a Drobel do meu bairro não é).
-Vamos dormir, então. Melhor não começar, né?
-É.
Tiraram a roupa e foram para baixo dos lençóis. Se ajeitaram agarradinhos e o pau duro do Tobi encostando na bunda de Marilia fez ela dar reboladinhas.
-Foda-se!
-Foda-se!
Prometeu que não iria enfiar. Foi chegando perto, brincando em volta, colocando na entrada...
-Não!
-Ah, Mari..
-Não!
-Então vamos dormir...
-Ai meu Deus!
Ele saiu de cima. Se ajeitaram agarradinhos e o pau duro do Tobi encostando na bunda de Marilia fez ela dar reboladinhas.
-Não começa, Mari...
-Eu não tô agüentando.
-Foda-se?
-Não...
-Puta que o pariu!
-Eu acho melhor ir embora...
Tobias pulou em cima e disse que não ia deixar. Ela pegou o pau dele e foi enfiando...
-Não!
-Eu não tô te entendo, Tobi...
-Foda-se mesmo, então.
O interfone toca (meu prédio não tem interfone, se o porteiro estiver dormindo ninguém entra).
-Eu não acredito! (em coro)
Era Cecília.
-Cecília?
-Oi. Posso entrar?
-Estou acompanhado...
-Eu sei. Posso entrar?
Cecília entrou, deu 3 beijinhos e um oi, da sala, para Marilia. Mari gritou do quarto:
-Cecilia, tu tens camisinhas?
-Sim. Muitas.
Resolveram o problema com um ménage a trois (definitivamente, eu não tenho tanta sorte assim, logo, Tobias não sou eu, Marilia e Cecília eu não comi).
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17:37
by a-lemon
Looping
Karine com C não gosta da Spin, mas dançou até se acabar. Karine com C tem vícios burgueses, mas não achou Berlin Oriental tão ruim assim. Karine com C tinha que trabalhar às nove, mas só foi às onze. Voltemos ao inicio: Aquela pulseira verde-limão fica ridícula no pulso. O problema é que, sem ela, vc não entra. Aquelas meninas caçando ficam ridículas na pista. Vc nunca sabe se passou pela mesma pq os cabelos louros e as roupas são iguais. Aqueles meninos de óculos escuros ficam ridículos na pista. Vc nunca sabe se passou pelo mesmo pq os cabelos arrepiados e o anabolizante são iguais. Mais uma contribuição do Brizola para a humanidade: os termos Mauricinho e Patricinha foram inventados por ele para caracterizar os filhinhos de papai cariocas que não lhe davam votos. Aqueles mesmos que tratam ironicamente o fato de um homem não achar legal camisa de manga floreada em carinhas semelhantes ao Marcelo Antonhy chapado. Karine com C detesta boyzinhos como todos nós naquela roda. Mas eles insistiam em nos achatar. Ana com A parecia preocupada, mas depois do sub-grave passou. Luciana com L parecia perdida, mas depois que encontrou as chaves melhorou. Caroline com K é nossa referência de alegria. Quando conseguimos ver o seu sorriso, contagia. Sorte do Fernando com F que tem a alegria todo o dia. Karine com C tinha uma obsessão pelo relógio. O tempo passava do mesmo jeito enquanto ela olhava a cada minuto. Tinha que trabalhar às nove. Voltemos ao inicio: O africano Lan é um MC muito bom, não berra e diz coisas com sentido. O Feijão é um Dj divertido. Ragga no inicio, clássicos brega dos anos oitenta no fim. Milli & Vannili com Eddy Grant. Bomb The Bass com Sydnei Magal. O astral do Espiral estava nas nuvens e fez todo mundo ficar com vontade de prolongar. Voltemos ao inicio. Karine com C, quando chega, parece um tanto arrogante; mas até onde eu sei, toda a pessoa, quando deixa a alma nua, se torna mais humilde. Karine com C agora é minha amiga, ou não. Tinha que trabalhar às nove; mesmo assim foi para a Spin. Pulemos pro fim: Karine com C foi uma companhia adoravel e Eu, com E, descobri (mais uma vez este ano) que estava enganado quando a achava antipática. Ela tinha que trabalhar às nove, depois fiquei sabendo que só conseguira chegar às onze. Aquela tragédia anterior, então, se tornou um teaser de uma superfesta surpresa com meus amigos legais de chapeuzinho e língua-de-sogra. Final feliz para uma semana que ainda não acabou.
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17:25
by a-lemon
Partes isoladas
Vou dar um tempo para ver se entendo as coisas que não entendo. Parte de mim partiu. Foi embora com os últimos eventos da semana. Está lá do outro lado, ignorando o pedaço que ficou. Às vezes eu queria que essas angústias fossem como teaser de festa surpresa: um primo diz que tua mulher está te traindo, vc prepara o flagra. Quando chega, entra furioso e...todos os teus amigos estão lá espremidos no quarto com chapeuzinhos e línguas-de-sogra...certamente não estão todos eles comendo a tua mulher. Assim espero as coisas boas depois das tragédias. Às vezes eu me sinto incompleto, mais imperfeito. É como ser apenas aquele que eu também. Um reflexo convexo do que se sente, um eco das coisas que não se diz. Como uma prece encerrada sem amém. O que está perto me parece tão distante e, o que está distante, fica sempre aqui presente; mas enrolado em muita fita isolante, protegido da descarga de um sentimento que lhe joga na parede. Com uma luva de borracha, aperta qualquer coisa que pulsa. Hj eu tive fantasias demais sobre minha reintegração. Troquei os lençóis, limpei a casa toda. Lavei a louça e a roupa acumulada há dias. Enchi a casa de incenso pra tirar o cheiro de cigarro. Fiz a barba. Sentei no sofá escovado e fiquei esperando por ela. Imaginei com toda a força que a viagem que faria para Curitiba era um teaser de festa surpresa. Que quando eu menos esperasse, ela ia aparecer na minha porta de chapeuzinho, língua-de-sogra e trazendo de volta a parte que foi embora...mas ainda falta um mês para o meu aniversário.
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12:18
by a-lemon
Se eu andar, será que passa? Fui andando, não passou. O aperto no coração foi aumentando. Quando cheguei na capela do João XXIII me senti estranho; eu era um estranho. Dezenas de amigos espalhados, muitos parentes em volta do caixão. Caixão é um nome grosseiro para nossa última embalagem. Quando eu morrer, quero ser enterrado em tetra pack. Esquife...ataúde...féretro ninguém conhece...ataúde é melhor, soa como algo que produz música. Música: os amigos cantavam baixinho aquela da Legião. É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. É preciso, sim. Pais e filhos abraçados, entendo a mensagem. Tinha uma irmã igual a ela. Pensei que era ela e que aquilo tudo podia ser uma piada comigo. Sou tão egocêntrico. Me aproximei. Não sabia se me reveleva. Seu Rui estava ali, ao lado do corpo, segurando as mãos frias cruzadas sobre o abdômen. Aquela era a segunda vez que eu via Helena. Estava linda, dormindo serena com flores no cabelo. Colocaram um vestido branco que eu acho que não usaria normalmente. Talvez sua mãe tenha tido a derradeira oportunidade de vê-la como gostaria que ela fosse. Como uma debutante; como uma noiva; como alguém que não se trancava no quarto para ouvir Lacrimosa acompanhada de efedrina e vodka. Alguém que um dia lhe daria lindos netos, futuros médicos. Apresentei-me ainda com medo de que me culpassem como eu culpava. Ele me tomou nos braços como se fosse o melhor amigo, um filho, um espírito de luz que lhe diria que estava tudo bem com ela, que agora ela estava feliz e tranqüila. Nenhuma palavra saiu de mim. Soluços não são palavras; mas talvez comuniquem mais que o silêncio. Me afastei. Não consigo ficar em enterros. A parte em que enfiam a gente naquele buraco e nos acimentam é deprimente demais; claustrofóbico para os vivos enclausurados neste mundo. Voltei para casa andando. Não passou. Não vai passar.
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15:37
by a-lemon
Demorei algum tempo pra decidir se escrevia sobre isso. Preciso falar. Meu telefone tocou ontem no inicio da noite. Não era quem eu pensava. Era Helena. Conheci-a em março, quando sentou na minha mesa com seu pratinho de comida indiana, no Ocidente. Conversamos sobre poesia, me mostrou algumas coisas rabiscadas num caderno universitário e trocamos telefones. Ligamo-nos algumas vezes, durante dois meses, até ela desaparecer. Nesta época estava conhecendo a Ju e, quando estou afim de alguém, me esqueço do resto do mundo. Sua voz estava estranha, lenta; mas achei que podia estar chapada com alguma merda de droga sintética que normalmente consumia. Me falou de solidão e abandono. Eu estava impaciente. Suas frases começavam fortes e iam sumindo. Depois de quase meia hora, dispensei-a educadamente por estar esperando a tal outra ligação que não veio. Meia-noite e meu telefone toca outra vez. Um homem chorando me pergunta quem eu sou. Digo meu primeiro nome e pergunto pq. Era o pai de Helena. Ele acabara de encontra-la morta com um frasco de pó branco ao seu lado. Tinha se suicidado sem carta deixada com motivos. Na busca desesperada por eles, seu Raul teve a idéia de dar o redial no telefone pra saber com quem ela tinha falado por ultimo. E esse quem, foi eu. Havia pelo menos mais duas pessoas chorando desesperadamente ao fundo. Uma delas, talvez a mãe, perguntava repetidas vezes pq? Eles achavam que eu sabia...abandono, solidão? Não consegui explicar direito que não a conhecia tanto assim; que nenhum indicio do que aconteceria tinha sido deixado. Apenas chorei com eles. O corpo de Helena ainda estava lá, sobre a cama e, no chão, um caderno rabiscado, talvez o mesmo que me mostrara. Seu Rui leu em prantos uma ultima frase: ligar para o Marcelo, meu amigo sensível que sempre encontra as palavras certas. Desculpe, Helena. Desta vez não encontrei.
Gostaria de poder dizer alguma coisa que valha a pena. Hj eu não vou conseguir. Quem me lê sabe que sempre trato de suicídios de forma jocosa. No post anterior fiz isso, contei coisas sobre o Ocidente tb. Premonição? As pessoa dizem que sou sensível. Não sou. Se fosse assim não afastaria de mim aqueles que me amam. Se fosse assim teria ficado com Helena até ela adormecer. Esta não é a primeira vez que recebo uma ligação dizendo que um amigo se matou ou tentou. Em todas elas eu nunca entendi. Meu primeiro sentimento é sempre a raiva. Perdemos muito tempo pensando na vida e deixando de vive-la. Alguns desistem dela por não perceber que o grande sentido de tudo é ultrapassar os problemas, desejar vence-los pra descobrir que, o depois, vale a pena. Em algum momento vai valer. Ter o sorriso de quem se ama, ver seu cachorrinho brincando na grama, ouvir o mar dizendo coisas sobre a tranqüilidade. Em qualquer lugar que procurar estará um motivo. Nunca fui Polyanna, não acho que o mundo é perfeito. O mundo é como é: feito de pequenas coisas que lhe dão sentido. E as grandes que te derrubam, servem apenas para que se entenda que a busca da existência é tentar fazer os breves momentos de alegria cada vez maiores. No final da vida, por pior que ela tenha sido, vc estará lá, velhinho, olhando para trás e descobrindo que, apesar de tudo, sobreviveu. Vitória!
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19:32
by a-lemon
Queda da própria altura
Em um dos muitos surtos psicóticos de juventude, comeu pequi e se achou o anticristo. Suas palavras saiam com espinhos. Teve certeza de que Nostradamus sabia dele: 7 dentes na garganta. Descobriu que podia destruir tudo em poucas frases. Esse poder ele não sabia que existia. Como a lenda dos Banshees, que aniquilavam seus inimigos com gritos; mais poderoso pq podia fazer isso com sussurros ao telefone. Com o tempo se aprimorou. Passou a usar termos vulgares da época de sua bisavó para parecer inteligente. Isso sempre funcionava pq a maioria não os conhecia e qualquer coisa que obrigue a procurar um dicionário cria essa ilusão. Como galhofa. A traquéia era um canhão. Chamou santa de puta e gênio de imbecil. Em sua loucura sentia razão. Não é isso que faz os loucos interessantes? Muita gente que se acha maluca é apenas exibida, enjoa rápido. Apenas os dementes de verdade seduzem por sua natureza ilógica. Era metade dinamarquês. Dan, que está na raiz de Danemark, significa dano. Os outros arianos antigos pensavam isso deles. Alguns belgas ainda acham. Enfim, oq dizia arrasava toda a gente, inclusive as que ele amava. Na medida em que os surtos se seguiam, não ia restando mais ninguém por perto. Até seu psiquiatra ele conseguiu que mudasse para uma ilha da Malásia. Quando se percebia sozinho, tentava o suicídio tropeçando. Viu no Fantástico que alguns insanos internados conseguiam isso. Com ele não funcionou pq estava bem alimentado e tinha ossos fortes. Seu salário no Ministério Público lhe garantia uma boa vida. A maioria dos psicóticos tem boa memória para decoreba e são facilmente aprovados em concursos...só não esperem garantia de justiça deles. Um dia, cheio de galos na cabeça, conheceu uma guria perfeita. Como diz a Claudia Tajes: toda a mulher quer saber de um homem que ela é sua cura. E essa era mesmo, pelo menos para sua solidão, pq era surda.
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13:54
by a-lemon
As viúvas e os amantes que ainda não nasceram.
Eu amo assim, precisando. Amo as partes que faltam e os excessos. Amo errando, dizendo as coisas que não quero; supondo oq não foi dito e que não é sincero. Eu não sei quem eu sou mas tenho certeza de mim. Acredito na necessidade de ouvir. Na precisão das frases. Na menina feita de palavras. Na metonímia exata. Quando amo eu me engano; sou defeito em conserto, garantia de um ano. Eu amo desse jeito: como se já não existisse e ainda fosse aparecer. Vivo o medo do sujeito confuso que ninguém vai querer. Tenho a sorte de, apesar de tudo, alguém gostar. Por quê? Não sei. Sorte não tem explicação.
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12:23
by a-lemon
O último Maragato
Imaginem a voz de um homem, pelo radio, convocando um povo a lutar pela legalidade de nossa constituição frente a uma tentativa de golpe militar. Imaginem 100, 200 mil gaúchos em frente ao Palácio Piratini, prontos para pegar em paus e revólveres, sem medo da ameaça de um borbadeio ordenado por Brasília, cantando o Hino Nacional. Imaginem sargentos e soldados cruzando os braços sobre a pista de decolagem para impedir que os oficiais partissem com os Meteors para o ataque e o comandante do 3o exército aderindo ao movimento popular contra as ordens superiores. Pois o homem era Leonel Brizola e o povo era o meu. Enquanto a maioria dos paulistas aplaudia e os cariocas foram para a praia, minha gente disse não. No final, 900 mil gaúchos estavam inscritos como voluntários para o enfrentamento. Depois o Tancredo Neves, que morreu como bonzinho, deu um jeito de se tornar Primeiro Ministro fazendo acordos. Depois o amedrontado Jango, que por duas vezes abriu as pernas sob o pretexto de impedir uma guerra civil, aderiu aos acordos. E isso deu tempo para que os militares se preparassem melhor até 1964. Apenas pelo episódio da Legalidade de 1961, Brizola já estaria na história do Brasil. Nunca votei nele nem concordava com seu caudilhismo. Mas tenho certeza que com ele se vai o último político brasileiro coerente com suas idéias. O último que dizia oq tinha que ser dito para aqueles que não possuem nenhuma convicção. O Maluf era o filhote da ditadura e, depois do debate, não tinha aperto de mão. Daqui a cem anos, a fase senil, em foi governador do Rio, talvez seja citada em apenas uma linha. Mas a personalidade forte e a fé em suas idéias será lembrada em muitas páginas. Historiadores irão contextualizar. Biógrafos escreverão calhamaços recheados de fofocas. Claro que ele tinha seus podres, seus conchavos, sua sede de poder. Não existe político que não seja um FDP. Mas definitivamente, dentre os FDPs, ele vai fazer falta nesse cenário de bundões entreguistas. Avante gaúchos com fé na luta pela liberdade! Um dia nós fomos assim.
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19:13
by a-lemon
Conhecimentos imperfeitos II
Vinte anos e um dia depois, vou no Ocidente outra vez. Futurama é o nome da festa e o Bender podia ser visto por lá, chapado num canto do bar. Festa perfeita para mim é aquela que tem meu nome na lista. O Pedro estava tocando. Demorou muito tempo para o meu espírito rock aceitar a palavra "tocar" quando se trata de DJ`s. Preferia usar mixando. Mas esse é mais um dos preconceitos que perdi...e o Pedro é tão rock que ele toca mesmo. A Renata já chegou quebrando um copo no meio da pista, oq foi bom pq abriu um buraco onde os Espirais de dentro e de fora do balcão puderam se instalar mais confortavelmente. A música era do Plump. A loira que me olhava era a Márcia, ex-namorada do meu amigo André, que tinha deixado a guria pq não agüentava mais. Garota neurótica, daquelas que investiga celular e liga de madrugada pra saber se vc está em casa. Mr. Keys veio me lembrar que ela era uma das poucas meninas sozinhas como eu. Ele ainda não me conhece tanto assim pra saber da minha rejeição hormonal as louras. Tb não me conhece tanto assim pra saber que sou um canceriano apaixonado. Tb não conhece a Márcia pra saber que oq ela queria era saber do André. -Oi, Marcelo!- Jeito meio blasé. -Quanto tempo!- Sim, claro. Desde que tu terminou o namoro nunca mais passou lá no Bar. -Como tu vai?- Bem. -E a Juli?- Terminamos. -Que pena...- Já não penso mais assim. -Ela ainda mora em sampa?- Sim. -E tu ainda está sozinho?- Não...tb é Juliana, tb mora em sampa. -Ah, que incrível!- Acha mesmo? -Que bom te ver!- Anrrram. -E o André? Veio?- Bingo! -Tu sabes que o André está com a Patrícia aquela nojenta exibida sem sal que eu sei que ficava com ele quando a gente estava namorando pq eu vi as ligações dela pra ele o fda cretino nojento traidor que eu nunca mais vou olhar pra cara e não quero nem pintado de ouro rastejando na minha frente e pode vir que nem um cachorrinho que eu chuto a bunda sem pena depois de tudo o que fez pra mim imagina meu sofrimento o desgraçado eu quero mais que morra seco na beira da calçada nunca mais nunca mais nunca mais.- Para uma advogada até que ela posssui sensibilidade. Ensaiei meu discurso feminista de que estava certíssima e devia mesmo se valorizar. Nesta altura o Pedro já procurava a Cândida e o Nando Barth colocava aquele som Nando Barth, que te faz pensar se dança ou procura um dealer de ácido. Saí de fininho com alguma desculpa boba e, ao voltar para a pista, encontrei o André, que nunca esteve mais de duas vezes com a Patrícia, completamente bêbado e cercando uma garota muito feia que eu tenho certeza que é lésbica. Como as minhas amigas já beijavam os meus amigos, fiquei dançando com o Uka, que ainda não beijava ninguém. A pista estava vazia quando decidi ir embora e, ao descer a escadaria, passei pelo André agarrando a Márcia. Definitivamente, eu não entendo gente. Voltei pra casa desejando mais do que normalmente os beijos da minha complexamente simples Juju. Liguei para ela as 5:30 da madrugada. Me atendeu com um "oi nhamnham amor" tão lindo que valeu por mil beijos. Falou comigo sonhando. Despediu-se dizendo "sou nhamnham louca nhamnham por vc". Ela louca por mim é a única coisa perfeita que eu conheço. E o resto que se fôda!
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14:49
by a-lemon
Conhecimentos imperfeitos
Achava que era vergonha. Como é mesmo o nome dela? Thais. Melhor vergonha que incerteza. Ela fazia o gênero lascivo. Era o tipo de gordinha gostosa; moura do sul da Itália que, por azar, nasceu em Caxias do Sul...tudo bem, nascer na Sicília tb não é grande vantagem. Usava os cabelos do Robert Smith, as roupas do Robert Smith, a maquiagem do Robert Smith. Circulava pelo Bar Ocidente seduzindo todos os homens com seu sorriso nada Robert Smith. Era o inicio dos anos 80, claro. Um dia arrumou um namorado. Como é mesmo o nome dele? Sérgio, me ajuda! Como era o nome do cara? Zé, chamavam ele de Zé. Sujeito apaixonado, propagava por ai o seu amor. - Eu amo a Thais...olá, eu amo a Thais...bom dia, eu amo a Thais.- Ela gostava disso, precisava disso, mas não correspondia. Era vergonha, melhor que incerteza, pensava ele. Curiosamente, a menina preferia fazer piadas de duplo sentido sobre a própria bunda na frente de estranhos do que chama-lo de meu amor na frente dos amigos. Talvez para manter a imagem "dark", pensava ele. Zé era o crédulo de mocassim. Usar mocassim no Ocidente era, mais ou menos, como usar esses sapatos de boliche hj em dia. Zé era o crédulo de jaqueta reversível do Tevah. Usar jaqueta do Tevah no Ocidente, era como usar blazer de couro sintético marrom combinando com os sapatos de boliche hj em dia. Além disso, ele tinha um grande defeito: ser advogado. Ser advogado era como ser advogado em qualquer lugar desde sempre. Vergonha, pensava ele. Nunca entendemos muito como ficaram juntos. Sei que se conheceram quando ela tentou se jogar da janela do Bar e ele a impediu. Provavelmente era o único que não queria apenas tirar aquelas camadas de roupa preta. Isso fez diferença. Contudo, ninguém daria mais de algumas semanas para aquilo acabar. Thais era minha superficial conhecida, tínhamos transado uma ou duas vezes no banheiro. Um dia, o Zé acabou sentando do meu lado, em uma mesa com outros amigos superficiais dela. Eu era estudante de direito, coisa que podia ser perdoada pela simples possibilidade de ainda poder me arrepender. Tive com ele uma longa conversa sobre como ser budista no ocidente (o lado do planeta, não o bar). Descobrimos juntos que isso passava depois dos 25 anos, como um cabelo comprido de metaleiro ou um discurso libertário punk. Thais se acomodou duas cadeiras depois, colocando a mão no joelho de todo mundo, nunca no dele. Naquela época, nossos conhecimentos eram imperfeitos. Tínhamos uma leve noção de muitas coisas, não sabíamos nada com profundidade. Vivíamos discutindo Camus, Baudelaire e Oscar Wilde tendo lido apenas algumas resenhas de cadernos de cultura. Afirmávamos coisas definitivas sobre o amor tendo vivido muito pouco dele. Oq sabíamos sobre as pessoas? Quase nada. Perdi contato com a "tribo" quando fui morar em Salvador. Precisei de muita praia e carnaval para perder o ranço deprê. Quando voltei, encontrei alguns deles já transmutados e assimilados pelo tal sistema. Sabe quando trocam o e-ai-meu pelo como-vai-meu-caro? Odeio quando me chamam de meu caro. Prefiro falsificações chinesas baratas. A Thais eu vi esses dias no parque, correndo atrás de uma criança de bicicleta e vestindo uma camiseta de clube de swing. Atrás dela, vejam só, o Zé com sapatos de boliche e blazer de couro sintético. Estava careca não por calvície, mas pq agora era budista.
Vinte anos depois, o mundo mudou e eu me sinto o mesmo, sem saber muito sobre as coisas e as pessoas. Neste inicio de tarde ensolarado, depois da chuva forte de ontem, resolvi tomar um sol em frente ao campo de futebol alagado. Como um russo encostado nos muros de retenção à beira do Volga, absorvo o calor e a luz sob aplausos dos meus pigmentos. Minhas lembranças buscam algum outro aniversário do Sérgio. Acho que não lembro de nenhum pq estávamos muito bêbados. Contudo, toda a fraseologia quase nietzscheana do meu amigo ressurge. Coisas faladas que definem a ocasião, indiscutíveis afirmações, sarcasmos geniais. A verdade estava na cerveja quente e a diversão podia ser apenas uma tarde inteira jogando Gyrus no Buraco. Sexo seguro era olhar a bunda da Carla no Elo Perdido, antes dele ser encontrado. Sim, eu acho que tenho saudade. Talvez ele nem saiba o quanto gosto dele pq eu nunca disse. Agora, então, está dito. Feliz aniversário, meu amigo.
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10:11
by a-lemon
Demasiado estereoscópico
Têm coisa que quando se diz, dá vontade de engolir o balãozinho. Têm coisa que quando se faz, dá vontade de voltar um quadrinho. Infelizmente não existe chuva como a do Frank Miller ou Morte como a do Dringenberg. Não se pode pendular sobre as ruas como o Homem Aranha ou beijar a Elektra no topo de um prédio, como o Demolidor. O mundo real tem pouca perspectiva pq Moebius não o criou. Pra onde foram os braços do Mandrake quando agarrou a Valentina no metrô? Estão ali atrás. Tua mente os constrói e faz sentir o tato. A imaginação é poderosa e o cérebro enganado. Queria muito ser desenho do Alan Moore e, do Manara, o meu amor. Minha história perfeita com roteiro do Neil Gaiman. Admito que tenho certa frustração por não ser bidimensional.
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15:15
by a-lemon
Lupercália SE
Valentino, que não era Rodolfo mas virou Santo, nunca soube mesmo se existiu. Achava que era apenas sua própria ficção. Herdou daquele que lhe deu o nome apenas o nome e uma vontade imensa de amar. Pobre e cristão, viveu nos tempos de Claudio II, imperador desesperado de uma Roma decadente ainda não convertida. De pequeno, descobriu que era autófago mastigando os dedos. Resolveu ficar gordo para viver mais tempo. No dia 15 de fevereiro do vigésimo quarto ano de seu nascimento, depois de ter jantado o lábio inferior inteiro, resolveu colocar um cartão com seu nome no jarro de Lupercus, junto com o dos outros solteiros. A menina que lhe sorteou fugiu calada; e ele passou mais um feriado de primavera sentado sozinho em cima de uma pedra, comendo um pequeno pedaço de sua nádega. Depois disso, decidiu ser evangelizador e promover o amor dos outros. Quando o Imperador proibiu os casamentos para que os homens lutassem sem sentir saudade dos filhos, Valentino dedicou-se a realiza-los escondido. Descobriram. Foi julgado e condenado a morte um dia antes da Lupercália de dois anos depois. Por sorte, prenderam e executaram o Valentino errado, um outro que andava por lá e tb virou santo. Mesmo assim, o nosso achou melhor fugir para um degredo onde viviam profetas e condenados. Ali conheceu Renata, uma desterrada menina canibal que havia comido a família inteira. Cheios de afinidades, enamoraram-se com um pacto: um saborearia em partes o outro. Em vantagem, Valentino tinha menos pedaços. Suas carnes suculentas ele já tinha devorado. Comeu dela um braço, os peitos e as deliciosas coxas. Ela ficou com o pescoço, um pé e as bochechas. Após lamber os ossos, Renata achou que dele tinha sobrado muito pouco; e que o que restara dela era carne de primeira. Foi embora dias depois com uma caravana circense, carregada no colo por um engolidor de fogo sem dentes. Valentino não pôde pedir para ir junto pq a moça já tinha lhe comido a língua. Morreu sobre a terra, se decompondo como lixo orgânico que era. No lugar onde virou adubo brotou uma oliveira. Fizeram dele azeite milagreiro e casamenteiro. No mesmo dia em que foi condenado a morte por Claudio II, muitos e muitos anos depois, surge o atual dia dos namorados. Utilizaram sua história como metáfora do amor, incompleta, excluindo alguns fatos e deixando os atos bons. No Brasil, pra variar, o dia tb foi deturpado. Um publicitário motherfucker resolveu institui-lo num mês em que o comércio vendia pouco. No mundo, as flores prensadas da Holanda, os corações cartonizados da Itália, viraram celulares com mil torpedos de graça. A lembrança de que o amor pode ser triste como a história nunca foi cogitada. Ficou apenas a idéia de que precisa ser comprado em açougue. Feliz dia dos namorados, então.
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12:45
by a-lemon
Este lado para cima
Cuidado! Sou frágil. Quebro com a menor saudade. Me enrola em plastibolha para esta viagem. Ploc,ploc. Mania de estourar. Será um sentimento destrutivo? Segura bem firme. Não me deixa escorregar. Carrega no colo sem apertar. Isopor no coração, caixa bem forte de papelão. Tem um espaço vazio aqui no peito. Capacidade máxima: 1 menina de nome certo. O amor não esta coberto por seguro contra atitudes radicais. Como ter controle das coisas que se faz? Então tá, me leva no correio. Manda de volta pro lugar de onde veio. Este estabelecimento não se responsabiliza pelos sentimentos aqui estacionados. Não deixe objetos de valor esquecidos dentro do carro. Por favor, fume dentro do elevador. Aguarde atrás da linha amarela. Piso escorregadio. Seguir a via segura é do meu feitio. Mas deixe alguma lembrança. Sentir o cheiro de poison pode ser uma esperança. O beijo é tão profundo quando goza. Quero a tua língua. Quero a tua barriga. Quero o relevo das tatuagens. Quero a confiança de uma amiga. Me diga. Me ensine. Me explica quem eu sou. Esta análise me deixa louco. Eu quero ficar louco. Tudo oq sinto vem de vc. Brota ai dentro. É pra onde eu vou. Ih! Caí. Junta os cacos, retira os pedaços que não te agradam. Faz de mim um novo eu. E sempre que eu fizer errado, me joga no chão e começa tudo outra vez. É preciso ter paciência para quebra-cabeças. É preciso ter paciência para construir o amor. Tosca em alemão. Desiderium em latim. Os cães não sabem se passaram dias ou minutos. Sentem falta do dono no momento que eles vão embora e a saudade é a mesma depois de um mês ou dois segundos. Então ela não aumenta, nasce máxima. Melhor assim. Creio em Wittgenstein. Me construo através das palavras. Quando digo que amo, me faço amor, tomo consciência dele. Quando digo saudade ela é apenas minha. Experiência única que só eu sei. Para os chineses são alguns traços, para os ocidentais alguns vocábulos. Para mim, sou eu de cabeça pra baixo. O mundo está incorreto. E apenas uma pessoa pode torna-lo direito.
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16:31
by a-lemon
Rotatória
Um dia, nestas conversas de aeroporto em que se presta atenção depois de horas espera, ouvi que Cumbica em tupi-guarani significa lugar de muito nevoeiro. Guarulhos foi construído numa cumbica. Os aviões não pousam, não decolam. Mas uma hora vc chega. Já os táxis, voam. Eu tento explicar o caminho com alguma confiança. Moema, Ibirapuera, Pavão. -Aqui, direita!- Entramos em Moema Pássaros. Percebi que os paulistas não compreendem o conceito de rotatória. Ao invés de placas de pare em todas as entradas existem placas de dê a preferência. Vago; pq para uma mente mais individualista o dar é um conceder que pode ser feito a si. Alguns motoristas pensam que o circulo é o alvo. Como um heliponto. Ficam lá no meio parados, olham para os lados e seguem. -Vai mais devagar que eu não sei qual é a certa.- Esse cerrrta me entregou. O motorista baixou pra 100. Rouxi; bentiv; canar; japu; pint. -Ei, é aqui!- Se São Paulo é a cidade que não dorme, a Rua Pintassilgo é narcoléptica. Eu juro que ouvi pássaros. Eu juro que vi uns doze periquitos. Congonhas é logo ali. Posso coçar a barriga dos aviões que quebram o quase silêncio. Parque do Ibirapuera à esquerda, shopping sempre em frente. Para que lado está Vila Mariana? Espero a noite chegar. Fico na janela adivinhando se aquele que está passando é o táxi que vai traze-la para mim. Ela chega. O elevador é lento...
Difícil explicar o amor. Qual amor? Os homens se apaixonam mais rápido que as mulheres. Os homens são mais agressivos ao amar. Para Barthes o sujeito apaixonado percebe o outro como o Tudo, imagina que o outro quer ser amado como ele gostaria de ser. Assim, a utopia é complexa e nem sempre se manifesta em atitudes lógicas. Vc pode simplesmente beijar, acariciar e dar prazer. Vc pode subjugar ou torturar unicamente para mostrar que existe. Vc pode apenas desejar um motivo pra ficar exuberante e inspirado. Mas escondido em tudo isso está sempre a vontade de se completar. Quando vi os olhos dela pela primeira vez me senti completo. Isso dá medo. Amar tb é sentir medo. Meu jeito é caprichoso, o dela lúdico. Eu tenho então um sonho na minha frente. Como lidar com os sonhos tendo que acordar? Como não deixar revelar aquele lado sombrio que existe aqui dentro? Nos sentimos as únicas criaturas felizes andando pela Av Paulista. E quando a Paulista terminar? Às vezes eu acho que pergunto demais e vivo de menos. Então ela me ensinou algo: um dia de cada vez...um dia de cada vez...
E me apaixonei. Eu não a amo apenas pq é linda e sexy ou pq é uma das pessoas mais inteligentes que já conheci. Suas palavras têm um poder sonoro transcendental. Seu beijo tem uma energia estonteante. Seu sorriso acabaria com uma guerra. Eu a amo pq quer ter um jipe e adora chocolate. Pq faz uma sopa deliciosa. Pq espreme cravos e chora no jornal nacional. Eu a amo pq é doce quando menos se espera e firme quando preciso. Pq quando dorme ronrona e pq adora coisas com estampa de oncinha. Principalmente, pq com ela eu descobri um paradigma novo. Não quero mais fazer perguntas. Ela é a única resposta que preciso. O futuro eu estou aprendendo a viver assim: um dia de cada vez...um dia de cada vez. Como carros em uma rotatória ideal: no tempo certo vc está dentro e pode seguir em frente.
De volta ao céu ensolarado e limpo de Porto Alegre, sinto falta de muita poluição. Surpreendentemente, sampa se tornou um lugar onde gostaria de morar e ser feliz.
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