acidulante

30.11.04



Confesso que tenho profunda admiração por essas pessoas que querem realmente salvar o mundo, como o Bruce Willys e o Steven Seagal.


23.11.04



Rotação

Às vezes eu falo com as pedras; às vezes com as estrelas. Muitas vezes com minhas entranhas. Observo a noite com seus seis mil sóis visíveis e penso em como tudo é grande e é só uma parte. É infinito e, se infinito, não existe o nada. Observo seis mil células que se juntam para formar um pequeno poro superficial do meu dedo e penso em como tudo é pequeno. Meu dedo é finito, mas mesmo quando acaba nunca se torna nada. Penso no hidrogênio, no carbono e em como se ligam. No universo girando quase todo no mesmo sentido. Na nuvem de poeira e gases que girava e cuspia pedaços que giravam e que se aglomeraram e continuavam girando e cuspindo e formando atmosferas e se aquecendo e cuspindo a vida surgida da água. Lembro de um pequeno beija-flor na sacada fugindo da tempetade e de um antigo amor que corria para a grama verde nos dias de chuva forte e que girava e girava de braços abertos e cuspia pedaços que giravam e giravam e se aglomeravam até que a vida surgida da água era tb cuspida e mais leve que o ar flutuava e explodia e se transformava em uma parte do céu.

Não tenho medo das coisas que não existem, mas tenho de pensar em nada. Tenho medo de um dia meu assunto ser apenas a nova tecnologia do celular exposto. Tenho medo de que minhas idéias não venham mais do acumulo de minhas experiências, mas se tornem mera referência daquilo que a cultura predominante me impõe. Não quero ser apenas mais um a se preocupar com a grana e a aparência de possui-la. Com a aparência de inteligência ou cultura. Não quero cantar em inglês, escrever em alemão, decorar em italiano ou pintar em francês. Quero ser apenas eu, rodando no meu eixo, em torno de um sol, ao redor do universo e mergulhado no infinito. Cuspindo partes que, apesar dos elementos comuns a todos, sejam apenas as minhas. Se o nada existe, ele está dentro da cabeça de quase toda essa gente que prefere a linha reta pq essa é a menor distância.


22.11.04



Ecolalia


O ex-cirurgião plástico Alex Hoffmeister observava a janela atrás do neurologista com um olhar perdido enquanto cacarejava e latia.

- Como você pode ver no resultado da tomografia, a lesão situa-se no giro angular e córtex adjacente da fissura sylviana posterior do hemisfério dominante.
- Eu não agüento mais esta situação; respondeu lambendo o dedo indicador direito e dando tapas na própria cabeça com a palma da mão esquerda.
- Você deve se preparar, Alex. Vai experimentar esses transtornos de desagregação do eu e de linguagem...
- Eu sou jovem, tenho a vida inteira pela frente. Não quero mais passar por isso. Não vou cuidar de você; disse entre sorvos e assovios, ajeitando as canetas sobre a mesa por ordem de tamanho e cor.
- Sentirá dificuldade em se relacionar com os outros, incapacidade de compartilhar sentimentos, gostos, emoções. Vai ter problemas para coordenar idéias...
- Eu vou te deixar...Eu vou te deixar; gritou Alex batendo os pés e as mãos freneticamente ao mesmo tempo em que rodava os olhos.
- Tenha paciência. Através do tratamento neurolinguístico poderá aprender controlar estes impulsos...
- Quero que você saia de casa. Vou ficar com a Toyota e o apartamento em Punta; sussurrou trincando os dentes e dando sacudidelas com a cabeça.

O acidente de Alex não foi tão grave. O problema aconteceu porque o air-bag do Volvo explodiu em sua cabeça. Saiu do consultório beijando a recepcionista e o segurança e seguiu pela Dr. Timóteo gorgolejando e dando voltas em si mesmo. Andou algumas quadras batendo palmas até chegar em casa. Antes de abrir a porta, retrocedeu alguns passos, agachou e pulou para frente. Catarina estava esperando com as malas dele já prontas e perguntou demonstrando um ar complacente diante das cuspidas que Alex deu sobre piso de mármore.

- Pensou no que eu disse mais cedo? Não vou voltar atrás.

Alex respondeu estirando a língua e batendo com a cabeça no marco da porta;

- Como você pode ver no resultado da tomografia, a lesão situa-se no giro angular e córtex adjacente da fissura sylviana posterior do hemisfério dominante...


18.11.04



Bombando de bombados

O Tales resumiu bem a situação do lugar quando pediu um suco de açaí com um sorriso irônico nos lábios.


17.11.04



Tesão intelectual

Foi então que a Marília disse: eu até curto um lance estético, mas namoro um cara feio beeeem na boa. Isso aconteceu na festa de inauguração do Beco, o novo bar trash-eletrônico de Porto Alegre, algumas horas depois de devorarmos a pizza jaba-the-hut que a Renata construiu com minúcia de arquiteta. Colunas de palmito com arquitrave de presunto, métopas de pepino e piso de salsichas. Talvez a frase não cometa gargalhadas se vc não conhecer a Marília...e tb o ex-namorado dela. O fato é que, isso dito assim, com aquele jeitão bem porto-alegrense de alongar a última vogal da penúltima palavra, com aqueles olhinhos vivos de longos cílios piscantes e com todas as tatoos old-school espalhadas pelo corpo, ficou muito engraçado. O Beco era um restaurante de quinta com decoração de sexta que continuou igual. O jeitão meio despencado é todo o charme do lugar. Isso te dá liberdade para curtir o som sem ficar se perguntando se a decoradora já apareceu no caderno Casa&Cia da Zero-Hora. Enquanto o Chaves mixava na pista pintou o papo de relacionamento, coisa muito normal, já que todas as minhas amigas têm problemas com ele. Um é entupido, o outro leva seis meses pra dizer que não quer namoro agora. Um é pegajoso e o da Cris é pansexual...Eu e a Carine ficávamos nos olhando e pensando se não deveríamos ter problemas...Se bem que eu ia curtir uma Carine bi. Bom, enquanto os namorados iam sendo digeridos com a mesma lentidão da pizza, surgiu um sujeito, do nada, ao lado da Marília. Ofereceu uma tequila -que não tinha - deu uma cantada daquelas que os leitores do caderno Donna da Zero-hora dariam. Afirmou que a capital da Autrália era Sydnei e que os Iraquianos são árabes. Disse que seu programa favorito era Sex and the city e para isso ela não torceu o nariz. Algumas vodkas -era oq tinha- e a Marília deu uns beijos nele. Depois da terceira dose, não existe homem burro. Além disso, o cara era triiiiiiiii lindo.


8.11.04



As mariposas no meu quarto

Na manhã de quinta-feira sonhei com meus dentes caindo. Mais de 32, com certeza. Cuspia-os aos montes sobre as mãos em concha. Sisos, caninos e molares. Sem sangue, obturados e com cáries. Sonhos com dentes são normalmente um mau presságio. Morte! Mas, se caírem sobre as mãos, significa a chegada de um filho; alegoria parideira. Na noite de quinta-feira uma mariposa entrou no meu quarto. Ficou pousada sobre a parede amarela me observando. Poemas de Goethe e Yeats me surgiram não sei de onde. Nos mitos açorianos elas são bruxas disfarçadas que entram nas casas pelos buracos das fechaduras para chupar o sangue das crianças. Em famílias com sete filhas, sem meninos, a primeira deve batizar a última com o nome de Benta, sob pena desta virar feiticeira e fazer juras para o capeta. Chamei a mariposa de Benta apenas por amor a contradição. Preferi acreditar noutra tradição. Capturei-a com cuidado e sussurrei meus desejos em seu ouvido. Libertei-a na noite quente para que levasse aos céus o meu pedido. Mariposas são mudas e guardam bem os nossos segredos. Somente Deus, que tudo ouve, poderá recebe-los. Mariposas são quase sempre um mau presságio; mas meu misticismo se encerra na poesia. Deixei isso de lado e segui a minha vida. Na manhã de sexta-feira sonhei com uma ex. Isso significa arrependimento. Mas se eu cuspi-la em minhas mãos não será um filho? Talvez. Na noite do mesmo dia, outra mariposa entrou no meu quarto, desta vez uma bem grande. Pousada sobre a cama ficou ali me observando. Parecia querer desafiar minha incredulidade. Capturei-a com cuidado e sussurrei o meu desejo novamente. Libertei-a na noite fria com a certeza de que desta vez a mensagem chegaria. Deixei isso de lado pq meu misticismo se encerra na poesia. Na manhã de sábado, com todos os dentes e sem ninguém ao lado, acordei avermelhado por uma mortal alergia.


7.11.04



Eritrowavelets

O vermelho é o limite do visível. Abaixo dele o espectro luminoso não pode ser percebido. É o positivo, o criativo e o mais vital. Vermelho é o sagrado e o pecado. É quente. Ao emanar-se, ativa o que pelo frio estava inerte. Sua ausência impossibilitaria a existência. Quando em raio, dá energia. É saúde, vitalidade, reativação mental e física. A luz que pelo corpo é imediatamente absorvida. A força em expansão. Vermelha é a cor do universo que se afasta e da pele quando leva um tapa. O que é vermelho provoca estímulos. Tesão. Demonstra a timidez e a irritação. O matiz que mais penetra e que te deixa otimista e confiante. É a vida e o sangue. O amor e a alegria. Neutraliza a solidão. Vermelho é o rubi, a pedra zodiacal do mês em que nasci. É o time do Internacional, a utopia adormecida, uma parte do livro do Stendhal. O que o olho humano mais deseja, o próprio desejo e o sabor da massa. É a cor de uma menina linda que não sabe como é rara e preciosa. Ao contrário do que todos pensam, não é o vermelho uma cor primária; o magenta é que se encontra puro na natureza. Mas depois de tudo oq foi dito, quem poderá chamá-la de secundária?


5.11.04



O Bush que não é a banda

Toda a legitimidade que foi dada ao Bush nesta eleição só prova que os norte-americanos merecem mesmo tomar bombas nos cornos.


1.11.04



Finados

Na véspera do dia dos mortos, Porto Alegre amanheceu calada. Apenas as crianças esboçam algum sorriso sem culpa ou dúvida. Os garis empilham aos milhares as bandeiras de plástico azul e desapaixonado, descartáveis como o voto nelas representado. Nos jornais, as grandes corporações expressam sua vitória estampando É ELE! nas manchetes orgulhosas. Finalmente conseguiram. A RBS elegeu mais um dos seus funcionários. Porto Alegre amanheceu triste e cansada da luta. Dividida entre a razão dos justos e o ódio dos egoístas que acham que podem ganhar mais com os benefícios escusos do poder. Nas minhas fantasias, Porto Alegre amanheceu arrependida e, amanhã, levará flores para o túmulo dos ideais que ela assassinou.


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