acidulante

15.12.04



Pré-operatório

Foi dormir e acordou com medo. Sempre soube que um dia aquele chegaria, mas nunca pensou ser tão cedo. A gente se sente jovem até descobrir que não é mais. Fuma, bebe, come ovo com açúcar. Augusto constantemente manifestava um orgulho por nunca ter sido operado, nunca ter nada quebrado, raras vezes sofrer com um resfriado. Isso acabou. Na primeira consulta o cirurgião lhe disse com um ar de Dr. Caligari que não podia mais esperar; que era agora ou a dor lhe mataria. Foi então que veio o pavor e a sensação de solidão. Hoje, na data marcada para a cirurgia, pensou em não ir. Pediu para a mãe lhe acompanhar, mas ela tinha manicure. O pai precisava bater umas fotos de árvores pq o dia estava lindo e ensolarado. A namorada não podia sair do trabalho. Então, quem iria segurar sua mão? Quem estaria ali para receber a noticia trágica de que alguma coisa tinha dado errado? Quem empurraria sua cadeira de rodas depois? Uma residente, destas que escolhe a profissão pq lhe disseram que dá muita grana? E se ocorresse uma hemorragia, uma reação alérgica à anestesia? Com tudo isso na cabeça, ficou prostrado na poltrona da ante-sala, congelado pelo pânico e pelo ar-condicionado. A atendente o chamou. Entrou suando e sentou na cadeira elétrica que logo ficaria toalmente molhada. O doutor apareceu de máscara, luvas e lhe arrancou o siso apodrecido, o último dos dentes molares, a primeira parte definitiva do seu corpo que lhe era retirada. Mas tudo ocorreu bem, não se preocupem.


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