28.2.05



Cabisbaixo

Nos dias em que estou forte, atravesso caminhos longos em poucos instantes. Como um super-homem-de-meia-idade. Para o alto e avanteeee! Comendo vento como o meu cachorro na janela do carro, sentindo um gosto de halls baunilha. Mas hoje estou cansado da vida. Do meu trabalho, do meu salário. De ser o mais articulado e ser obrigado a falar pelos outros. To cansado dos conchavos, dos corruptos e do Severino deputado. Dos seguranças, das cercas e da súplica dos burgueses seqüestrados. Desejo a morte dos surfistas, dos neonazistas, de todos os alienados. To cansado de não conseguir dormir e de ter que acordar. Não agüento mais o calor e o ar-condicionado gelado. Tenho nojo daqueles se acham. Comprar uma guitarra ficou muito fácil. E dos carinhas de óculos de aro preto que dizem fazer documentários. Dos "cineastas" que olham para uma coisa infinitamente linda e falam que daria apenas um curta-metragem. Dos artistas plásticos que deixam a tinta escorrer pelo quadro. Das meninas que vão para Londres e voltam assinando com UK do lado. Eu acho que não chove pq Deus cansou de chorar pelos homens. Merecemos mais tsunamis. Merecemos pragas e o fim dos tempos em 2012. Olha só, começou a chover...


21.2.05



Cronologicamente

Ás vezes eu não sei se a música é feita de notas ou do silêncio entre elas. O mundo anda tão barulhento, tão cheio de sons vazios. Marca o passo. Quem foi que criou o tempo? Essa seqüência abstrata que é o senhor dos medos. A vida se resume em não deixa-lo passar em vão, mas quando está, é fugaz; quando era, permanente. Só existe o passado. O presente já foi e o futuro é fé. Como podemos nos deixar controlar por algo constante que a cada momento se torna diferente? Inventamos as fotos para aprisiona-lo, o cinema para manipula-lo. Proust correu atrás, Camus o fez mais lento, Joyce o confundiu. Einstein o relativizou. Ainda assim nunca conseguimos vence-lo. Eu tenho medo do tempo e, como fuga, reivindico apenas os instantes.


Deus me livre de ter medo agora
Depois que eu já me joguei no mundo
Deus me livre de ter medo agora
Depois que eu já pus os pés no fundo
Se você cair, não tenha medo
O mundo é fundo
Quem quiser no fundo encontra a porta
Do fim de tudo
Bem junto da porta está São Pedro
No fim do fundo
Findo
Fundo
Findo

Bem depois do fim de tudo o medo
Do fim do mundo
Bem depois do fim do mundo o medo
Do fim de tudo
Bem depois do fim do mundo o medo
Do fim do mundo
Bem depois do fim do mundo o medo
Do fim de tudo

COM MEDO, COM PEDRO
Gilberto Gil


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