29.6.05



Releituras retrô

De que estranhas memórias Erica se valeu para usufruir do passado buscando nele o modelo ideal, os motivos de glória. Elementos, enfim, para problematizar o presente. Mesmo que não falasse sobre sua história, seu corpo a traduziria em movimentos repetitivos. É a forma que o organismo encontra para recordar. É a gênese de toda a fantasia. Quando se é uma pequena gorducha toda a saia parece balonê. Se não se é bonita toda a maquiagem pode ajudar. Depois é só arrepiar os cabelos rosa-choque e pronto. Erica era de um tempo em que o legal era ser feio. Mas a crueza dos 90 chegou. Erica então passou a promover festinhas de garagem com seus amigos de calça bag. As festinhas de garagem viraram Festas Vintage. As Festas Vintage viraram Festas Retrô. O tempo passou. Durante o séc XXI, Erica foi a maior produtora de Festas do Ridículo da cidade de São Paulo. Erica não as achava ridículas, mas foi assim que o folder a apresentou na promoção de sua mostra de relíquias dos anos 80 no novo Museu de Arte Pré-Hipermoderna em 2060. Aos noventa e sete anos, ainda morando no mesmo prédio de pastilhas, Erica morreu de velha, deitada numa cama tubular. Vestia tule e bebia champanha. Diz a lenda que seu Gênius ainda tocava. Tuuu.Tuuu-tu-tu. Tuuuuuuuu. Tu-tu. Tu-tu. Tu-tu.


10.6.05



Lupercália TE

Valentino, que não era o Rodolfo, mas virou santo, nunca soube mesmo se existiu. Achava que era sua própria ficção. Herdou daquele que lhe deu o nome apenas o nome. Pobre e cristão, viveu nos tempos de Claudio II, imperador desesperado de uma Roma decadente ainda não convertida. De pequeno, descobriu que era autófago mastigando os dedos. Resolveu então ficar gordo para viver mais tempo. No dia 15 de fevereiro do vigésimo quarto ano de seu nascimento, depois de ter jantado o lábio inferior inteiro, resolveu colocar um cartão com seu nome no jarro de Lupercus, junto com o dos outros solteiros. A menina que lhe sorteou fugiu calada; e ele passou mais um feriado de primavera sentado sozinho em cima de uma pedra, comendo um pequeno pedaço de sua nádega. Depois disso decidiu ser evangelizador e promover o amor dos outros. Quando o Imperador proibiu os casamentos para que os homens lutassem sem sentir saudade dos filhos, Valentino dedicou-se a realiza-los escondido. Descobriram. Foi julgado e condenado a morte um dia antes da Lupercália de dois anos depois. Por sorte, prenderam e executaram o Valentino errado, um outro que andava por lá e que tb virou santo. Mesmo assim, o nosso achou melhor fugir para um degredo onde viviam profetas e condenados. Ali conheceu Renata, uma menina canibal que havia comido a família inteira. Cheios de afinidades, enamoraram-se com um pacto: um saborearia em partes o outro. Em vantagem, Valentino tinha menos pedaços. Suas carnes suculentas ele já tinha devorado. Comeu dela um braço, os peitos e as deliciosas coxas. Ela ficou com o pescoço, um pé e as bochechas. Após lamber os ossos, Renata achou que dele tinha sobrado muito pouco; e que o que restara dela era carne de primeira. Foi embora dias depois com uma caravana circense, carregada no colo por um engolidor de fogo sem dentes. Valentino não pôde pedir para ir junto pq a moça já tinha lhe comido a língua. Morreu sobre a terra, se decompondo como lixo orgânico que era. No lugar onde virou adubo brotou uma oliveira. Fizeram dele azeite milagreiro e casamenteiro. No mesmo dia em que foi sentenciado a morte por Claudio II, muitos e muitos anos depois, surge o atual dia dos namorados. Utilizaram sua história como metáfora do amor, incompleta excluindo alguns fatos e deixando os atos bons. No Brasil, pra variar, o dia tb foi deturpado. Um publicitário que se achou gênio resolveu institui-lo num mês em que o comércio vendia pouco. No mundo, as flores prensadas da Holanda, os corações cartonizados da Itália, viraram celulares com mil torpedos de graça. Daquele tempo ficou apenas a idéia de que o amor precisa ser comprado em açougue. Feliz dia dos namorados, então.


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